sexta-feira, 13 de abril de 2018

Nômade


Os horizontes eram longínquos rabiscos encrustados na moldura que formavam céu e terra num encontro brutal e incansável.
Nossos corpos famintos não mais impulsionavam nossos desejos rumo a qualquer direção. Estagnados em nossa própria perdição olhávamos nuvens infindas que passavam rumo ao nada.
Não havia sol. Não havia frio nem chuva.
Era uma neutralidade incontida que nos circundava e não deixava que o tempo pudesse ser contado.
Ele já não mais dizia palavra. Nem mesmo comentava resignado da dor que dilacerava.
Era silêncio, como o tudo ao redor.
Retirei de minha bolsa o livro que sobrara.
As páginas não estavam tão velhas ou desgastadas, mas estavam sujas e eu tinha para mim a certeza quase constante de que se moviam como se absorvessem partículas de cada momento em que as li em voz alta para aqueles que partiam ao meu lado.
Sempre silenciosos. Uma aceitação carregada de desespero mudo.
Comecei a ler e ele voltou os olhos em minha direção. Secos demais para formar lágrima ou sorriso.
Ouviu.
Viu.
Imaginou a trajetória do homem mais mais solitário do mundo que, segundo Murakami, encontra-se no oposto lado de um abismo intransponível. De uma enormidade inigualável e enlouquecedora.
Percebeu que, naquele momento, não era era o homem mais solitário do mundo.
Eu estava ali a seu lado, mas em alguns minutos, o abismo me engoliria e faria com que eu me encontrasse no lado oposto. Onde o nada me aguardaria sorrindo num canto escuro.
Voltou seus olhos para o céu.
Aquela nuvem pequena parecia uma folha.
Uma folha fina soprada por um vento que nunca veremos.
Não havia sol. Não havia frio nem chuva.Era uma neutralidade incontida que nos circundava e não deixava que o tempo pudesse ser contado.Ele já não mais dizia palavra. Nem mesmo comentava resignado da dor que dilacerava.Era silêncio, como o tudo ao redor.Retirei de minha bolsa o livro que sobrara.As páginas não estavam tão velhas ou desgastadas, mas estavam sujas e eu tinha para mim a certeza quase constante de que se moviam como se absorvessem partículas de cada momento em que as li em voz alta para aqueles que partiam ao meu lado.Sempre silenciosos. Uma aceitação carregada de desespero mudo.Comecei a ler e ele voltou os olhos em minha direção. Secos demais para formar lágrima ou sorriso.Ouviu. Viu. Imaginou a trajetória do homem mais mais solitário do mundo que, segundo Murakami, encontra-se no oposto lado de um abismo intransponível. De uma enormidade inigualável e enlouquecedora.Percebeu que, naquele momento, não era era o homem mais solitário do mundo.Eu estava ali a seu lado, mas em alguns minutos, o abismo me engoliria e faria com que eu me encontrasse no lado oposto. Onde o nada me aguardaria sorrindo num canto escuro.Voltou seus olhos para o céu.Aquela nuvem pequena parecia uma folha.Uma folha fina soprada por um vento que nunca veremos.

sábado, 24 de junho de 2017

26

Temos 26 dias para viver.
26 dias para declarar o quanto podíamos ser.
Tempo para que minhas mãos possam se espalhar por sua pele, cabelos, nuca, boca.
Para ver sua pele se arrepiando entre seu sorriso e seus olhos que se fecham.
Deixando em cada centímetro uma lembrança do que não chegamos a ter.
Temos 26 dias para viver como um.
Como um que se vê diante do espelho e espera o tempo passar enquanto os olhos se tocam como um beijo aguardado para sempre.
Espera que caiam os muros que nos cercam e dividem.
Levando para longe o sonho que se encontra em seu sorriso.
Temos 26 dias para esperar que tudo acabe. 
Como acabam as noites quentes onde nos perdemos cúmplices dos crimes que planejamos cometer.
Fica a lembrança de uma busca que deu certo.
Um perfume e o feitiço lançado num dia quente.
Fica a cumplicidade rara que transforma tudo em paz.
Resta aceitar que 26 não é mais um número real. 
Aceitar que a vida é um organismo mutável e incontrolável. 
Um barco pequeno e inseguro que escolhemos para navegar no oceano bravio do coração.
A vida é permitir que o sol preencha um vazio que renasce em nossos peitos.

É caminhar como um. 

De mãos dadas com a lembrança e a saudade e o recomeço e as histórias que ainda não contamos.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A mão esquerda de Deus

O quarto apesar de branco, era escuro.
Deixava ver uma linha clara escapando por debaixo da porta pesada que fechou lenta e num som abafado pelas borrachas em suas bordas.
Estava sozinha.
Nos cantos nem mesmo uma aranha ouvia ou via qualquer de seus movimentos.
Sem moscas.
Sem almas por perto.
Apenas um silêncio tangível que cheirava a mofo e cascas velhas de laranja.
Do lado de fora deveria estar movimentado, com pessoas indo e vindo, executando suas funções de forma mecânica e desinteressadas. Pensando em suas vidas, ou na ausência delas.
Em seus homens, mulheres, filhos, casas frias e doenças silenciosas.
No sem sentido do tudo.
Na falta de sentido de suas escolhas.
Vazio.
Deitada e encostada numa parede fria desejou poder ouvir musica.
Tentou se lembrar de uma canção antiga, que sua mãe cantarolava enquanto cozinhava.
Se lembrou do cheiro da lenha queimada, e dos sons dos animais no quintal.
Do pai contando histórias contadas pelo pai de seu pai.
De seus sorrisos sinceros e sem som. Do calor de seu quarto onde brigou um sem número de vezes com seus irmãos.
Tocou a parede fria sentindo as falhas na pintura grosseira, como se fosse a agulha de um disco de vinil lutando para se manter em movimento enquanto acordes fugiam por entre seus dedos.
Chaves tilintaram do lado de fora, fazendo com que os pensamentos fugissem como pássaros numa revoada descontrolada.
A luz cegou.
Ouviu uma voz dizendo que a hora chegara.
Num tom suave e direto. Como se pedisse perdão.
Não havia o que se perdoar.
Nada além das promessas não cumpridas.
Dos abraços negados.
Dos silêncios dissimulados e das memórias de dias vividos em vão.
Ainda haveria tanto tempo.
Tantas histórias para contar e gravar com os olhos.
Sabores para a boca e sentidos para os dedos.
A voz de seus pais soando de novo, e novas canções para serem conhecidas, mas o tempo era uma ilusão cruel.
Andando lentamente pelo corredor longo e estreito sentiu descer por seu rosto uma lágrima quente, que deixava um rastro que aos poucos se perdia entre o toque de um frio impossível.
Seu corpo tremia, mas seus passos firmes continuavam em frente, a caminho da mão esquerda de Deus.

domingo, 2 de agosto de 2015

Fuga

Devolve o meu toque.
Meu beijo roubado num dia de chuva.
Abre seus olhos e vê que passou.
Devolve meu abraço infinito onde te coloquei para alcançar mil estrelas.
Devolve meu sonho.
Meus dias de sonho.
Meu tempo passado e perdido entre palavras cruas.
Me entrega o medo que mostrei entre as paredes que nos fecharam para sempre.
Entrega o sem conta de sorrisos ao te ver chegar.
Devolve a lembrança de mim.
A esperança do nós.
Foge de meus olhos.
Foge de meus sonhos atormentados pelos fantasmas do que não somos.
Leva consigo essa angústia desesperada que deixou em minhas mãos vazias e tristes.
Minha insônia.
Esses dias vermelhos em meus olhos.
Devolve meu canto.
Minhas canções.
Meus olhares.
Minha voz dizendo verdades.
Me entrega sem que eu saiba de onde vem.
O que é seu estou devolvendo dia a dia.
Gota a gota do que sangra a cada lembrar, nas costas de meu aceitar silencioso.
Foge de meus sonhos.
De meu peito devastado pelo segundo atravessar da tempestade negra que é você.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Ciúme

Foi como se houvesse brasa viva e pulsante em meu peito.
Um desejo descontrolado de explodir e levar entre meus mil pedaços outros mil pedaços dele.
Para bem longe.
Doloridos em cacos pontiagudos de vidro e aço e madeira branca e seca. Daquelas duras de quebrar e queimar. Que envergam até o limite, sempre berrando contra o vento e a força do mundo que a impele contra o solo.
E resiste.
Cresce e germina o ar com sua verdidão e sons misturados de fruto nascendo e folhas vibrando amarelas sandices intocáveis.
Foi por um momento apenas.
Um toque de mãos numa despedida despida de qualquer implicidade.
Não houveram palavras pintadas de paixão ou aromatizadas de qualquer erotismo que me fizesse respirar leve.
Foi como se houvesse brasa viva entre meus olhos, meu passos e a distância que tornaria seguro meu mundo a seu lado.
Respirando lentamente para que o ciúme se desprenda evaporando de meu corpo e meus poros e ouvidos surdos por mil eternidades.
Ela se foi, ele me viu chegar.
Sorrindo com os olhos me abraçou dizendo um oi bonito e carregado de uma branca pureza alheia a meus loucos pensamentos.
Fechei os olhos, mergulhando nua em minha própria paz construída.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Fome

Há uma fome que não passa.
Corre de braços abertos entre a luz e a escuridão.
Entre campos e florestas densas.
Em silêncio.
Em brados infindos.
Uma fome que, insatisfeita, não nos deixa partir para o nunca mais.
Uma fome em cores impossíveis.
Em sons sentidos nas pontas dos dedos.
Vibrando pequeno como se para ouvir, fosse preciso sonhar.
Essa fome carrega em si um perfume inalcançável.
Um cheiro do animal aprisionado em seu corpo.
Cítrico e selvagem como uma folha que cai.
Me olhando com fúria e espera.
Vigiando cada olhar e movimento.
Cada passada larga do desencontro.
Farejando cada passo rumo ao que não fomos.
Há uma fome que não passa, apesar do tempo e do medo e da chuva ao redor.
Ela corre livre entre os lobos de sua pele,
Que devoram cada pedaço de nós para que nunca possamos voltar.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O sonho de Alice

Ela suspirou por um segundo que durou o restante de sua vida.
Durou pelo tempo em que seus olhos permaneceram fechados.
Absorvendo. Se alimentando de cada molécula daquele momento.
Incrédula.
Absorta em se perder para sempre, olhou para os lados sem ver o que podia ser encontrado.
Buscando um ponto de fuga para seu desespero.
Tentando respirar com o peito esmagado e os olhos a deriva sem saber em que oceano se perderam.
Viu aquelas mãos subirem num gesto perfeito de entrega e sonho.
Fechou novamente os olhos para sentir de perto a melodia que fugia das caixas espalhadas ao redor.
Ela chegava rouca e cheia de dor.
Uma harmonia absoluta e descrita em cores primárias e perdidas, e nuas, e quentes, e abandonadas numa frequência inalcançável.
Era o fim.
As mãos baixavam lentas em direção ao microfone que transmitia ao cosmos um ouro líquido.
Era um ansioso pedido de perdão.
Quis chorar como se o mundo fosse um canto escuro onde pudesse se esconder sozinha até o fim dos tempos.
Rasgando todas as cartas que nunca conseguiu enviar.
Todos os segredos que teimou em esconder.
Olhou para a porta negra e fechada que a dizia para ficar.
Sabia que lá fora a lua a esperava indicando o caminho de casa, mesmo sem estrada por onde pisar.
Sem a luz amarela para guiar seus olhos molhados.
Fique.
Cantava o ouro líquido desesperado.
Ela se levantou trêmula para aplaudir, mas não havia som.
Apenas seu coração pulsando descontrolado a espera de um próximo acorde.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Começou pelos pratos que estavam empilhados a direita da mesa escura.
A madeira gasta denunciava uma idade avançada, marcada por inúmeros pratos, talheres, panelas e caixas ali colocados durante anos e anos.
Sentado no chão de terra batida seu filho brincava enterrando um marimbondo com areia, só para que em seguida pudesse salvá-lo.
E recomeçar.
O sol soava leve naquela tarde. Amansado por nuvens suaves e um vento frio que fazia balançar o sino de vento feito com pedaços de bambu.
Olhou para o instrumento roto, e se lembrou de que precisava consertar uma das hastes soltas.
Voltou a cantarolar a canção cantada no almoço. Era sua favorita, e contava a história de alguém que se vai para nunca mais voltar. Se arrepende, mas ainda assim não volta.
As pessoas sorriam, cantavam, comiam e gargalhavam genuinamente.
Aquele era um instante de quietude, onde ninguém se importava com o mundo girando veloz do lado de fora.
Não havia medo, dor, solidão ou falta de paz.
Eram um.
Que trazia um presente.
Que trazia o alimento.
A canção.
A mão.
O abraço.
Um que desejava aquele momento para sempre.
Que agradecia em silêncio.
Cantando mil canções de amor.
Sorvendo a aguardente preparada com esmero e mestrandade e calor e paixão.
Ainda cantava baixinho, com o menino acompanhando as partes mais fáceis.
Vez em quando olhava para trás.
Ele olhava de volta.
Indócil e sujo.
Feliz.
Não havia mais silêncio no mundo.
Era tudo vida e recomeço.
O cheiro do café.
O zumbido de uma mosca.
Sorriu pequeno e pensou que gostava de como o som da água que saía pela torneira confundia-se com o murmurar do riacho que passava ao lado de sua casa.
A vida voltava aos trilhos lentamente.
O verde voltava aos quatro cantos de seu quintal.
Os amigos não haviam abandonado seus dias.
Os sonhos não mais deixavam suas noites.

domingo, 28 de setembro de 2014

O Vazio

Subiram as escadas lentamente, contando cada degrau como se fosse um cego tateando a escuridão e reconhecendo cada nota negra que impregnava o ar invisível ao redor.
Em seus braços um saco de papel com algumas poucas frutas e um pão de casca fina.
Não gostava dos pães se desmanchando sobre a mesa.
Escolhia sem pressa os mais claros e macios, visualizando a manteiga que se espalhava e temperava a massa acompanhada por um café forte e quente.
O saco de papel fazia um som abafado quando roçava contra sua camisa, estalando quando se encontrava com a costura de seu bolso.
47.
O número de degraus já estava memorizado, mas ainda assim contava a cada vez.
Repetia em voz alta para que a pessoa ouvisse.
47.
Dessa vez era uma moça que acompanhava, trazendo consigo seus 16 anos.
Tinha um dos sorrisos mais bonitos e genuínos que vira em toda a vida.
Cabelos muito lisos e pequeninos. Olhos grandes e claros, vizinhos de rugas sorridentes.
Ela deixara de sorrir dois dias atrás, e desde que a percebeu seguindo-o, vinha cabisbaixa e segurando as próprias mãos nervosamente, apertando os dedos muito finos.
Não disse nada.
Ela não disse nada. Não o olhou nos olhos.
Nenhum deles jamais olhou até que entrassem no apartamento.
Nenhum deles jamais disse qualquer coisa.
A primeira fora uma senhora muito triste a quem se apegou discretamente, e mesmo sem o dizer, recebeu o mesmo afeto em retorno, o que não o isentou da dose de pavor ao vê-la subindo lentamente as escadas em sua companhia. Cabisbaixa. Silenciosa. Infeliz.
O menino que chorava muito veio muitos dias depois. Da mesma forma.
E outro mais.
E outros mais.
Já não tinha medo daqueles que o acompanhavam.
Ainda menos daqueles que passaram a habitar sua casa.
Percebeu em cada um a busca por companhia. A continuidade do carinho que tinha por cada um enquanto pacientes.
Abriu a porta e entrou sem acender a luz.
Ainda era claro e mil pontos de luz inundavam os cantos da sala.
Havia silencio. Poeira. Uma canção que entrava pela brecha na janela.
Ela cantava sobre o absurdo da solidão. Sobre a inconsequência do tempo.
Sentados a mesa sorriam e se levantavam seus pacientes perdidos.
A moça do sorriso mais lindo do mundo não sorria.
Não chorava.
Não tinha coragem de cruzar a porta.
Apertava seus dedos finos e brancos.
Queria voar.
Todos queriam, disseram. E então a abraçaram enquanto o homem sozinho seguia para seu quarto, deixando o saco de papel sobre a mesa vazia.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Quando fechou os olhos com um sorriso pequeno brotando em sua boca, o fez em meio a uma multidão de perfumes que escapavam de seus cabelos, envolvendo os dois corpos quentes, provocando arrepios pela pele que percebia entre os ombros nus um roçar suave da barba por fazer, da boca quente que se abria e mordia de leve os caminhos para seus sonhos.
Sentiu uma mão forte subir por suas costas, seu pescoço, sua nuca.
Suas pernas tremiam e o coração parecia querer crescer tanto, os envolver, ser um manto rubro de proteção de onde nunca mais sairiam.
Se deixou beijar.
Perdeu-se no caminho de volta a realidade, abraçada a um perfume que lhe tirava do chão, contando histórias incontadas, segredos imutáveis, lembranças ternas.
Fora de si a noite começava a tomar o mundo entre as mãos, fazendo dormir as árvores e animais incansáveis. Calando as crianças e os carros velozes. Acalmando os homens e acariciando a paixão das mulheres.
Levantou-se num átimo e abotoou sua roupa.

Refez o penteado e respirou fundo antes de sair pela porta carregada pelos passos mais pesados que uma mulher já deu em toda a história impossível de duas almas, deixando para trás um coração em silencio.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A chuva

Ao entardecer do centésimo vigésimo oitavo dia Noé sentiu doer a fome.
Uma fome tão terrível e triste que escurecia a visão, fazendo doer as articulações que berravam com o esforço para manter o corpo em movimento.
Podia sentir seu corpo se devorando lentamente. Desesperadamente nos últimos dias.
Ébrio pelo ar nauseabundo que, quase tangível, acertava seu rosto a cada movimento, caminhou para a borda do barco.
Olhou para o horizonte molhado e inalcançável e sentiu um desejo absurdo de vomitar.
Seu corpo se contorceu em dor, mas não havia o que colocar para fora.
Seus lábios ressecados sangraram com o esforço da boca. Os olhos lacrimejaram preciosas lágrimas que marcaram caminho por seu rosto.
Com uma expressão de desamparo, olhou ao redor.
Pouco restara para cuidar.
Naamá prostrada de encontro a parede olhava com seus olhos sem alma para um cordame que balançava estupidamente tentando alcançar o vento.
Havia uma dezena de dias que não dizia palavra.
Não se banhava.
Era um fantasma vestindo negro que caminhava lento e desesperançado.
Sobraram algumas cabras, pássaros e uma vaca que mal se sustentava apoiada num canto.
Ela mugiu ao perceber que era observada.
Suas costelas gradeadas como um bambuzal subiam e desciam infladas pelo ar salgado que saturava cada centímetro de pele.
Noé olhou novamente para Naamá que permanecia olhando sem ver. Respirando programadamente como uma máquina.
Caminhou para o fundo do enorme barco olhando ao redor, buscando o enferrujado machado que jazia enterrado num enorme pedaço de madeira escura e macia.
Foi fácil tira-lo dali.
Como se a força tivesse voltado para seus ossos e músculos ressequidos, segurou com firmeza o cabo roto e longo.
Caminhou de volta para perto do fantasma de sua mulher que ignorava o mundo ao redor.
Um trovão berrou ao longe, enclausurado na negritude do céu que se agitava entre ventos, raios e a fúria do deus.
Os segundos pareciam não passar enquanto o mundo era cercado por essa negritude brutal, enquanto os olhos desciam lentos do cabo para a lâmina. Da lâmina para suas mãos secas.
Levantou os braços. E, com eles, subiu o machado pesado. Agora tão leve. Tão puro.
Outro berro acertou esquerda e direita de seus ouvidos.
Naamá levantou os olhos com uma aceitação que beirava o desespero. Um pedido. Uma cumplicidade silenciosa e ansiosa.
Dessa vez um raio fez em pedaços parte da frente do grande barco, acompanhado de um ensurdecedor vendaval trovão tormenta que parecia cavalgar um corcel enfurecido.
O machado desceu com violência e rapidez terríveis.
Com um baque surdo partiu ossos, nervos, carne, pele pensamentos.
O animal caiu de joelhos e deixou que a morte seguisse seu curso.
A mulher levantou-se e se aproximou.
Tocou o ombro de Noé e se abaixou para recolher o sangue que corria quente e vivo enquanto a tempestade se afastava silenciosa. Incrédula. Resoluta.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Acordou agarrada a um desejo incontrolável de sentir a areia da praia se movendo sob seus pés enquanto assistia o sol inundar timidamente o canto do quarto, criando um prisma ao se debater contra o meio copo de água sobre o móvel ao lado da cama.
Desligou o telefone celular e separou um conjunto de roupas.
Ligou o computador e comprou as passagens, ignorando a caixa de e-mail que insistia em saltar avisando a urgência de mil trabalhos.
Era por volta das onze da manhã quando desembarcou recebida por um calor maciço que fez seu corpo se arrepiar de prazer.
Apertou de leve a alça da maleta e caminhou em direção ao taxi.
O motorista era um senhor alto, de voz aveludada e pelos embranquecidos pelo tempo.
Perguntou do destino e de onde veio.
Contou dos anos ao lado da mulher e do filho inquieto.
Da noite anterior pelas ruas da cidade.
Do momento em que saiu da cama.
Ela observava e absorvia tudo.
O cheiro do couro dos bancos, do ar soprado através das janelas, da água de colônia impregnada de calor vinda do homem, o movimento brusco das pessoas, prédios, arvores, cães, coisas deixadas para trás enquanto o carro amarelo seguia veloz pela avenida.
Pagou agradecendo e sorrindo.
Olhou para a entrada do hotel e para os dois lados da rua.
Alguns bares, restaurantes, vozes e o mar ao longe murmurando cansado.
Se olhou no grande espelho do quarto.
Os cabelos tinham mania de se espalhar por sobre os ombros, criando a sensação de uma adolescente querendo parecer mais velha.
Desatou o primeiro nó da camisa.
Começou a tirar a roupa leve que havia escolhido.
Fazia cada movimento se observando.
Gravando cada centímetro de sua pele.
Decorando cada sensação.
Encarando o próprio rosto até que estivesse nua diante de si mesma.
Fechou os olhos.
Escolheu o que vestir.
Com qual perfume se embebedar.
Qual sorriso sorrir.

Voltou para a rua, e em seu peito pulsava o desejo incontrolável de um querer animal.
Uma vontade intensa. Pura. Tangível, de devorar a si mesma.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013


alimento seu corpo.
sua alma.
seu coração.
mato a fome de sua carne.
despedaço a distância em nome do fim da saudade.
alimento seu corpo com meus olhos.
suas mãos com meu peito nu.
alimento seu corpo.
aqueço sua alma infinda.
mato o tempo que me espalha pelo espaço
atirando sua voz de encontro a mim.
mato sua fome.
mordo sua pele devorando seus olhos fechados.
alimento meu corpo
com o gosto de sua boca.
alimento seus pés com o caminho de encontro a mim.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Me vi refletido na vitrine de uma loja de aparelhos celulares mal iluminada pelos postes da avenida.
Tênis velhos, camisa e calça sem estampas ou marcas da moda.
Um penteado anacrônico, mas que caía bem ao conjunto - diziam.
Embriagado por uma sessão de cinema que me arrancou a fala e o fôlego, me enxergava parado ali.
Pensando em minha vida, meu caminho de volta pra casa, o desfecho do filme cruel.
Não conseguia me afastar de mim mesmo. Tão próximo de uma realidade palpável e quente, que qualquer som pelas ruas era um trovoar imenso e desconcertante.
A barba mal feita denunciava noites curtas e manhãs apressadas de uma alma entregue ao trabalho, sem trégua e sem tempo.
Toquei meus cabelos e senti no pulso o perfume daquela manhã navegando por meus poros e persistindo bravamente depois de horas de luta.
Ele havia elogiado esse perfume.
Perguntou qual era.
Sorri desconfiado e respondi olhando no olho.
Ele sorriu de volta, falando bem de minha escolha.
Se afastou com o papel na mão e um sorriso se perdendo no canto da boca, a caminho de seu escritório. Para longe de mim.
O reflexo sorriu olhando para mim.
Estava começando mais uma vez.
A sensação de desespero.
A vontade de que a noite seja breve.

A esperança de que dessa vez seja tudo diferente.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Sem nome

Era uma música daquelas que faziam sorrir. Com a cabeça encostada na janela do ônibus.
Vendo as luzes fugindo velozes e saturadas de vozes que falavam tanto sem dizer qualquer coisa.
Era uma música dedicada a uma moça que partiu a tanto tempo que os tempos mudaram.
Uma moça que sonhava com uma casa de madeira e sons.
A um rapaz que caminhava pelo pátio da escola.
Caminhava pelos corredores de uma empresa com o sonhos aos pedaços. Separados. Dedicados a alcançar qualquer lugar que os fizesse se sentir novamente juntos.
Era uma música que escapou pelos falantes da loja. Acertou uma dezena almas. Causou mil mistos de medo e prazer sem dizer mais do que deveria.
Todos diziam ser sua a canção, para usar como quisessem, para dançar de olhos fechados, para voltar um sem número de vezes até que a fita se embolasse e o momento fosse absorvido pelo desespero de ouvir novamente.
Era uma canção daquelas que faziam sorrir.
E, sorrindo, fazia o tempo parar.
Era uma canção sobre o impossível do que não pudemos viver.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013



Comprou quatro latas de cerveja, algum meio quilo de alcatra, cebolas e um pedaço de queijo.
Sorriu para a moça do caixa e disse que era dia de comemorar.
Meu time joga hoje, falou.
Ela sorriu de volta e disse um boa sorte agradável de se ouvir para quem carregava quatro latas de cerveja. E disse que o time seria campeão.
Devia ter convidado essa moça para ver o jogo comigo, pensou.
Ela não iria. Eu acho.
Nunca me viu. Tenho cara de bom moço, no entanto. Mas ela não iria.
Da próxima vez pergunto se ela gosta de cinema.
Uma comédia, talvez. Não sei para qual time ela torce. Maioria das moças gosta de comédias.
Acho que ela iria.
Continuava a caminho de casa, cumprimentando as pessoas pelo caminho.
Vestia a camisa de seu time. Orgulhoso. Esperançoso.
Disfarçava bem o coração louco que tamborilava no peito, querendo pular e gritar um grito preso de paixão.
O cachorro latiu feliz da vida ao ouvir o portão sendo aberto, e correu para a porta esperando.
Cheirou o pacote com a carne e torceu para que fosse um presente que chegava.
Se era, estava demorando a ser entregue.
Sentou-se.
Deitou-se.
Olhava pelo canto do olho o dono que andava, cortava, chorava cebolônicamente e bebericava cerveja.
Na tevê um restinho de programação antecipava o jogo.
O rádio ligado antecipava a partida contando histórias passadas e falando de esperanças futuras.
Na cabeça do dono, a moça do caixa.
E uma forma de, no escuro do cinema, tentar roubar um beijo.
Deixaria para o final? Talvez no momento de se despedir.
Ela estava meio despenteada. Era quase final de expediente, então pode ser que estivesse cansada.
Nem era bonita.
Mas tinha um sorriso honesto.
E disse que seu time seria campeão.

sábado, 3 de agosto de 2013

00:27

- você devia dizer tudo isso pra ela.
- não consigo. Fica aquele medo de que ela se afaste.
- então é difícil. Se ela não souber que você existe, não vai ter qualquer chance de que te queira.
- ela sabe que existo. Convivemos no trabalho, em algumas saídas do pessoal da empresa, mas nunca nos falamos como amigos.
Passo por ela pelo corredor e sinto o perfume que a segue lento. Fico imaginando se vem dos cabelos ou da pele. Adoro aquela pele. A cor, a textura... De olhos fechados ela está parada na minha frente, de pé, me olhando em silêncio enquanto devoro cada pedaço de seu corpo com os olhos, as curvas do pescoço, os pêlos fininhos da nuca, os dedos pequenos, os seios lindos com sardas claras.
- já viu?
- não. Mas gosto de imaginar.
- e são mais bonitos que os meus na sua imaginação?
- me deixa continuar. Ela está com um vestido azul leve, contrastando com os cabelos longos. E o sorriso? Adoro aquele sorriso. Me deito pensando, acordo ainda sonhando.
"É lindo seu sorriso". Disse pra ela outro dia depois de uma reunião. Agradeceu sorrindo bonito e foi embora carregando seu perfume de fruta boa pra colher. Esperei que olhasse para trás antes de virar o corredor. Não olhou. Sofri, mas sofri pequeno, pois ela havia sorrido para mim.
- você é muito bobo. Se tivesse alguém no mundo que me quisesse muito, eu gostaria de saber.
- aposto que tem.
- tem nada. Se tem, nem sabe com o que trabalho.
- se eu dissesse que é você com que vivo sonhando?
- para de bobagem.
- é sério. E seu eu dissesse que é você minha moça do sorriso lindo? Largaria tudo por nós?
- eu sofreria. Sofreria muito. Por mais que eu goste, não é você quem eu amo.
- e ele sabe desse seu amor?
- se soubesse, fugiria de mim pra sempre.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Anúncio

Procura-se uma moça que goste de cachorros.
Que saiba fazer pudim de leite condensado.
Uma moça que goste de viajar.
Que goste de comer.
Que saiba cozinhar.
Procura-se uma moça que sorria lindo.
Uma moça que goste de cantar, mesmo que não tenha uma voz bonita.
Uma moça que tenha a pele perfumada e os cabelos macios.
Que prefira o frio.
Que prefira o calor.
Talvez os ventos do outono.
Talvez a chuva lenta de um domingo.
Uma moça que goste de música.
Que não seja fanática por futebol, religião ou política.
Procura-se uma moça que já tenha se encontrado pelas curvas do mundo.
Que se conheça e não se perca entre os terremotos.
Procura-se uma moça.
Que me deixe a ponto de morrer de saudade,
Mas que sempre volte em meu último suspiro.
Que não fuja quando o céu escureça e os rios sequem.
Que goste de cuidar de seu corpo.
Que saiba como plantar uma flor.
Procura-se uma moça que goste de ler.
Que saiba fazer poesia.
Que não consiga abrir um vidro de conserva.
Procura-se uma moça que goste de sonhos.
Que me reconheça em cada metade do que um dia seremos.
Que nos ensine a ser metade do que é.