quinta-feira, 15 de outubro de 2009


Despertei entre escombros, com as mãos e pés doloridos, a boca e olhos ressecados. empoeirados. Sentia em meus ouvidos uma pressão que fazia doer a cabeça em pontadas silenciosas. Sentia apenas silêncio, dor e escuridão. Fiquei ali sentado de olhos fechados esperando me acostumar a falta de luz, e aos poucos comecei a perceber vultos que se moviam ao redor. Alguns andavam agachados, outros corriam, rastejavam, e alguns, como eu, estavam parados olhando em volta. Não me lembro por quanto tempo dormi, nem mesmo como cheguei ali. Minhas roupas estavam extremamente sujas e nada havia nos bolsos, além do pó que impregnava. Era impossível dizer se estávamos numa sala ou num grande alojamento. Sem sons, sem vento. Sem direção.

À medida em que recuperava meus sentidos, percebia mais e mais pessoas. Alguns parecendo tão perdidos quanto eu. Outros imersos em sua própria alma, alheios ao que nos cercava como se estivessem em coma. Os braços pendentes e olhos muito distantes não se moviam. Pareciam bonecos bizarros e mal acabados.

Uma criança veio correndo entre os vultos e parou perto de uma mulher grande e suja. Falou algo que a distância não me deixou ouvir e sumiu correndo entre os errantes. Tentei gritar por ela, mas não consegui emitir nenhum som. Quase explodi minha garganta tentando falar, mas em vão. Caminhei em direção a mulher com dificuldade, mas meu estômago revirava a cada passo e meus olhos começaram a lacrimejar exageradamente, a ponto de me imperdir de ver. Os ouvidos zumbiam como se houvesse uma furadeira trabalhando a plena carga, dilacerando aço e concreto em fragmentos que se enterram fundo na carne, sem deixar esquecer. Caí de joelhos quando minhas pernas falharam e entre a poeira e as lágrimas, vi a menina correr em minha direção. Chegou bem perto, como se estivesse sentindo meu cheiro quando vi que não tinha olhos. Em seu lugar, bolas negras e opacas giravam em todas as direções, como se fossem uma espécie de radar. 'Ainda é cedo pra você andar. Quando nascer um pouco mais, venho te buscar.' Sua voz era um misto de grito e murmurio. Tempestade e calmaria, com uma pele rugosa que parecia resistir a poeira. Ela apontou para o norte com dedos longos e ossudos, de onde subia um enorme sol negro com bordas de um cinza cegante, mas que não aquecia. Não iluminava. Piscou algumas vezes observando o que parecia ser um céu e depois se voltou pra mim tocando meus braços e tornou a me cheirar. Instintivamente, tentei sentir seu cheiro quando percebi que desde que despertei, não havia respirado. Ela correu antes que eu pudesse perguntar algo e pegou a mulher pelas mãos. Levei minha mão ao peito e as lágrimas pararam quando não senti.

terça-feira, 15 de setembro de 2009



oi. boa tarde.
boa tarde.
estou participando de um projeto pra universidade em que foi proposto o tema "desconhecidos". gostaria muito de poder fazer uma foto da senhora com algum filho, ou parente próximo.
foto?
sim. foto.
mas foto pra que?
pra um projeto da escola.
e pode ser com meu marido também?
é claro!
então espera que vou chamar. Antôooooonio!
então. quem é esse moço?
ele é da entidade.
não, senhora. da universidade. é que estou participando de um projeto fotográfico em que foi proposto o tema "desconhecidos". gostaria muito de poder fazer uma foto de vocês. posso?
foto? pra fazer o que?
para um projeto.
o que vai fazer com essas fotos?
algumas delas serão expostas no encerramento do projeto.
foi isso mesmo que ele te falou primeiro?
foi... acho que foi.
e quanto você vai ganhar com elas?
não vou ganhar dinheiro com elas. isso vale ponto para o trabalho.
então seus professores vão ganhar!
acho que não, senhor.
ah. claro que vão. onde você já viu isso? parece bobo. fotógrafo é cheio do dinheiro, que eu to sabendo. quando vai dar pra gente?
nossa... meu dinheiro mal ta dando pra pagar meu curso.
tá mais fodido do que eu então, hein?
mais ou menos isso.
veja bem. veja bem. meu dengo aqui vai valorizar seu trabalho. embelezar essa tal exposição. olha como ela é graçuda.
tenho certeza que vai. mas me desculpem. estava olhando aqui e só agora vi que gastei todo o rolo do filme na parte da manhã, e não tenho mais.
filme?
é.
você é burro? porque nao compra uma daquelas máquinas de tirar foto com telinha?

quinta-feira, 10 de setembro de 2009


Dias atrás me vi correndo entre nossos medos.
Descobri, caindo em abismos, que corria a sós.
Nas mãos, ouro e sonhos em troca de teu olhar.
Entre rios e montanhas senti o frio. Me alimentei de meu cansaço.
Bebi as notícias trazidas pelo vento, e os segredos guardados sob as sombras.
Desafiei os gritos das tempestades, rompendo o tempo a caminho de nós.
Te vi ao longe. Vestida de luzes, dançava.
Girando entre os braços, vigiada de perto pelo sabor de seu perfume.

Parado a sua frente, me vi.
Minhas roupas contavam minhas dores e meus pés ainda buscavam abrigo entre as pedras e a terra seca que varreu minha pele e meus cabelos.
Nas mãos, minha espada e meu escudo gasto escrito em letras de bronze, que refletindo seus olhos, diziam sim.

[foto de edu rickes]

terça-feira, 8 de setembro de 2009


Moro bem a beira do fim do mundo.

Minha casa tem janelas de pedra e vidro que deixam ver a chuva chegar. Meu cão de olhos espertos enxerga longe, correndo entre galhos e sóis.

Moro bem a beira do fim do mundo.

Onde meu flho e meus amigos cantam sobre gatos e telhados. Onde há uma menina e um céu. Magos felizes espalhando acordes honestos e estradas a percorrer.

Moro bem a beira do fim do mundo.

Onde há uma nova esperança, um novo perfume e novos sorrisos. Há saudade e recomeços. Grama para cortar e erros para corrigir.

Moro bem ali. No topo do morro, entre um lago e um grande carvalho. À nós, o sol vem primeiro.

Entre nos está a distância e a força para percorre-la.

Pra nós, todo o amor do mundo.

terça-feira, 18 de agosto de 2009



olha quem tá ali!
quem?
a sandrinha, cara.
que sandrinha?
aquela que tava com a gente na festa de fim de ano.
ué... onde?
ali, encostada na janela.
cara... não é ela.
é sim! claro que me lembraria dela, né?
voce ta doido. aquela é a irmã do chico.
que chico?
lá do bairro. cria pombo.
e quem diabo cria pombo?
o irmão dela.
cara... isso nao foi uma pergunta direta. eu tava raciocinando sobre qualquer vantagem em se criar pombo.
ah sim.
e é lógico que é ela. olha que boca. aposto que os cabelos tem o mesmo perfume daquele dia. nao tem como esquecer, né?
para de falar "né", e deixa de ser teimoso.
teimoso é você. eu dei uns beijos nela. eu é que sei se é ou não é.
então tá bom.
quando esvaziar o ônibus vou lá conversar com ela.
conversar o que?
sei lá. saber como ela tá.
heheh
o que foi? agora também nao tenho mais condiçao de dialogar com uma pessoa?
falei nada.
mas riu aí igual um calango.
e calango ri?
nao sei. mas voce riu.
parei.
é bom mesmo.
ta bom.
...
agora vai lá antes que chegue no ponto final.
eu vou.
então vá.
segura minha bolsa.
ta com medo de ela ouvir sua marmita batendo?
...

oi.
sim?
deixa eu te perguntar, voce sabe os preços dos pombos do seu irmão?

quinta-feira, 28 de agosto de 2008




staccato


era uma vez o copo. nele água. doce. e seus aromas.
suco, talheres, limpo.
agora, um Beta.
vermelho. irritado. faminto sempre.
era uma vez o teatro. atores, atrizes, poetas, maquiadores, diretor e platéia no auge do fim. o último aplauso reverberou por poucos metros, saído de mãos que tocaram um corpo horas antes.
o corpo caminhava rumo a um carro prata. gosta em especial dos carros prata. parecia que nunca se sujavam. eram cada dia mais comuns pelas ruas. comuns como seus passageiros. clientes. incomuns.
era uma vez um caderno com capa branca. tinha entre suas páginas uma fita de náilon marcando a última página escrita. gastos. ganhos. perdas. nomes. também o valor do Corpo.
sentia cada ano vibrando em sua pele. causticada casca coberta de histórias. exatamente assim. extremamente clichê.
era uma vez um Clichê. maquiado suavemente. singular entre os seus. ora vulgívagos, ora sôfregos e solicitados.
falaram do rosto puro e atrativo. precisa não. se pinta não.
não se pintava. não com esmero.
gastou com roupas. pouca roupa em partes. na maior parte das partes, era pouca. Clichê com frio, outrora também apresentado como Corpo.
o caderno como um adágio completava a saída. casa cheua essa noite. sorria o proprietário em conversa animada, alheio ao caderno que passava. compunha. estilizava.
encaminhou-se ao primeiro taxi, ainda cantarolando a melodia final da reprise. chorou. como chorou doze anos atrás.
o cansaço fazia a visão turvar-se. letreiros duplicavam seus dizeres num ir e vir vertiginoso. era tarde. o bastante para desejar o lar que cegava e deixava dormentes todos os sentidos.
era uma vez uma porta. antiga, cheia de cupins e nervuras. cheia de lembranças. guardava do mundo. guardava o mundo.
acendeu a luz da sala. o peixe levantou-se do fundo do copo. investiu contra o reflexo que a claridade trouxe. tinha fome. era vermelho e irritado.

segunda-feira, 5 de maio de 2008



- hmmm...
- que isso?!
- tava sentindo seu perfume. uma delícia.
- e precisa chegar tão perto? dá licença?
- é que não resisti. me perdoa?
- tudo bem, mas me dá licença.
- qual é o seu nome?
- existem outras formas de descobrir isso sem precisar dar uma de tarado.
- é o que estou fazendo nesse momento.
- tarde demais.
- agora to sendo educado. até cara de labrador sofrido eu to fazendo.
- ...
- vai falar não? voce ja é bem grandinha pra ter tão pouca educação.
- seu cretino!
- ta vendo? agora já passou a me ofender.
- não acredito nisso. voce começou com toda essa palhaçada e agora eu sou a errada? dá um tempo.
- típico das mulheres isso de tentar distorcer os fatos para que no final, tudo quanto é bobagem que façam ou digam tenha sido motivada por alguma coisa que tenhamos feito - ou não.
e eu não disse que voce tava errada. disse que era ofensiva e mal educada.
- não to acreditando nisso... meu nome é Gabriela. satisfeito? pode me deixar em paz agora?
- não.
- ahh... então vá passear.
- isso foi uma indireta?
- voce ta me irritando, sabia?
- mas eu não to fazendo nada demais! só estou sendo simpático e tentando sobreviver a seus ataques. isso me pareceu uma indireta, sim. ta aqui sozinha, puxa papo comigo e começa a falar sobre passear.
- ...
- me ignorar não vai mudar o que voce fez.
- saco! eu não te fiz nada! nem sei porque to insitindo em conversar ainda. dá um tempo!
- nossa... que grossa.
- eu não sou grossa! nunca tratei ninguem assim, mas voce ta me tirando do sério!
- tudo bem. eu te desculpo. qual é seu nome mesmo?



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008


ao terminar de ler Garcia Marquez, tive um surto de nostalgia misto de um formigamento nas partes.
a saia branca e surrada, que marcava as curvas quando ela acabava de se levantar ainda povoa meus sonhos, fazendo fechar meus olhos e sentir os aromas da infância impregnados de folhagens, lenha queimada, roupa lavada, animais, e ela.
nunca foi um primor de beleza ou de educação, mas tinha dois dons explícitos.
o de cozinhar e o de provocar.
o primeiro era caracterizado por seu famoso feijão tropeiro. pessoas vinham de cidades vizinhas às sextas e sabados para deliciarem-se. devo confessar que muito da fama de seu tropeiro era devido às pernas que iam e vinham levando e trazendo as refeições. o segundo dom estava completamente ligado a essas pernas.
propostas recheadas de cifrões eram feitas diáriamente, sempre provocando um sorriso provocador e uma negativa acompanhada da frase que se tornou cultura popular 'é muita carne pra tu conseguir moer'.
eu mal havia descoberto os primeiros pelos em meu corpo e já maquinava formas de conseguir moer tanta carne. sim. fui prematuro no que diz respeito às coisas desejosas do corpo. anotava em meu caderno de caligrafia os nomes daquelas com quem ja havia visto estrelas, constelações e galaxias inteiras. tudo anotado em letras rotas e inteligíveis aos olhos de meus pais e da professora.
ahh... a professora.
moça magra, olhos castanho-esverdeados, longos cabelos negros e cacheados, que teimavam em cobrir durante todo o tempo o que ela tinha de melhor, oculto em suas camisas brancamente impecáveis.
'oi! voce viu aquele safado? toda semana é a mesma história. o pior é que nem posso engrossar e acabar com isso.'
'faz bem. eles só vem aqui pra tentar conseguir dessas coisas com voce.'
'porque voce diz que faço bem?'
'ora... porque acho que ele não te merece.'
'que isso, garoto? fazendo pouco caso de mim? acha que não sou boa o suficiente pra ele?'
'não foi o que eu quis dizer.'
'e o que quis dizer?'
'ele não saberia o que fazer com tanta mulher.'
ela riu muito, ficou me olhando e perguntou se eu sabia do que tava falando.
foi minha vez de sorrir, e dizer que se precisasse de alguns ensinamentos pro dia em que decidir aceitar alguma proposta, ela saberia onde me achar. ela riu ainda mais.
levantou-se e foi até o balcão. trouxe uma garrafa com uma cachaça verde, cheia de pedaços de uma folha verde-escura e várias nervuras de raiz.
'bebe até a metade. depois voce vai me levar em casa. se conseguir achar o caminho, deixo voce me ensinar.'
sentada de frente pra mim, vigiou cada gota ardente que descia por minha garganta.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

direto ao ponto.

quem descobriu o brasil?
nao sei.
como nao sabe?
ué... nao sei.
mas voce nao viu isso hoje na escola?
vi, mas ninguem falou que eu tinha que lembrar.
voce ta de brincadeira
eu nao!! to conversando com voce!
quem descobriu o brasil?
ja falei que nao sei!
pega seu caderno.
pra que?
nao interessa. pega.
entao fala pra que.
vou precisar repetir?
ta bom... ta bom. toma.
onde ta a materia de hoje?
sobre o brasil?
sim.
tem nao.
como nao tem?
fiquei com preguiça de escrever.
...
porque ta me olhando assim? ta com raiva?
sua ultima chance. quem descobriu o brasil?
pedro alvares cabral.
porque nao respondeu antes???
porque voce nao tava com cara de mau.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

dor.

ele subiu as escadas lentamente, apoiado ao corrimão gelado. sentia-se como se carregasse uma tonelada presa a cada tornozelo. abriu a porta da frente e sentou-se no último degrau para fumar antes de se deitar.

tinha esse hábito há anos. ainda hoje abria a porta para seu cão sair e ficar junto dele. ele havia morrido há 7 meses, mas a velha mania mantinha-se ali. presente e estática.
gostava de observar as luzes dos carros que passavam trepidando sobre o calçamento da rua estreita e escura. as lampadas dos antigos postes de madeira não iluminavam mais do que poucos metros ao redor de cada poste, criando poças amarelas que vistas de longe pareciam o corredor de um hospital de filmes de terror. puxou com voracidade o ultimo trago no cigarro e jogou a guimba sobre a grama ao lado.

levantou-se, trancou a porta e voltou para a rua, seguindo até um banco de madeira rústico que havia em frente de um prédio inacabado de 3 andares. retirou do bolso o aparelho de telefone e sentou-se, fazendo estalar as tábuas ressecadas e enegrecidas sustentadas por dois troncos de eucalipto, rachados e perfurados por cupins. pegou o isqueiro com corpo de plastico transparente e ficou brincando com o liquido, tentando nivelar quando viu um rapaz subindo a rua, vindo em sua direção.

vestia uma camisa branca, jeans surrado e um tenis encardido com cadarços enormes que escapavam aos lados da bainha da calça.
aproximou-se e pediu fogo para acender um cigarro.

_obrigado. posso me assentar?
_a vontade.
_voce ainda sente muita falta dele?
_o que?
_voce ainda sente muita falta dele?
_de quem? do que voce ta falando?
_Cisco.
_como voce sabe dele?
_sente muita falta?
_quem é voce? como sabe dele?
_desculpe, Paulo. pode me chamar de Raz.
_isso é alguma brincadeira? quem é voce?
_eu sei que todos os dias abre a porta e espera que ele saia atropelando tudo para se sentar a seu lado enquanto fuma. falando nisso, devia parar com o cigarro. considere como um conselho valioso. sei que senta-se na beirada da cama e pensa nela. amarga um arrependimento por nao te-la buscado aquele dia.
_...
_a grande maioria das pessoas trocaria as conquistas de toda uma vida pela chance de voltar atras e mudar uma vírgula em sua história.
_o que te faz pensar que quero mudar algo?
_tudo sei. mais cedo ou mais tarde, vai perceber isso. não foi em vão que voce chamou por mim.
_voce......??
_voce ainda ouve os gritos?
Paulo olhou para o lado. queria poder ouvir os vizinhos brigando, os jovens chutando lixeiras no caminho de volta pra casa, mas não havia som. era difícil até mesmo ouvir sua respiração. um chiado que vinha do fundo e gritava com dor ao chegar em suas cordas vocais. o grito morria antes mesmo de passar por seus dentes. só existia o frio e o silêncio.
"os gritos... eles nunca foram embora...acho que nunca irão. talvez se eu não tivesse sido tão covarde..."
_acho que nunca foram embora.
_sabe que nunca irão?
_não consigo dormir desde que Cisco se foi... sonho com o menino sendo devorado. não consigo fazer nada. só fico parado escondido enquanto ele é comido vivo... olhando pra mim, chamando pelo pai e por mim. acordo chorando, gritando por perdão, pedindo para que essa vida chegue logo ao fim. mas o dia sempre vem. quente. barulhento. cheio de movimentaçao em volta de meu mundo que gira em anti-horario.
Raz era jovem. tinha o rosto magro, com barba malfeita e que crescia em pontos separados. os olhos lembravam os olhos de um cão traiçoeiro, sorrindo entre os dentes amarelos de nicotina. seu hálito lembrava poeira muito seca, que faz tossir, engasgar e lacrimejar. ele se lavantou, olhou para o céu e pareceu contar algumas estrelas antes de olhar novamente para Paulo. colocou a camisa para dentro da calça, coçou a cabeça e piscou.
_estarei em sua casa te esperando. demore o tempo que achar necessário. se achar que deve voltar atrás, nunca mais entre ali. vá para longe, tente esquecer sua dor e seu medo. mas saiba que nos encontraremos novamente, e nesse dia, não me verá em trajes que alimentem sua tranquilidade.

[ foto de Marta Rickes]

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

coisas. e a infância.


acordei bem cedo, com o vizinho a acelerar seu velho automóvel velho ao lado da janela de meu quarto. coloquei a cabeça pra fora "bom dia, senhor saulo!" gritei pra vencer o ronco esfumaçado.
ele levantou a mão em cumprimento e acelerou ainda mais, feliz da vida com seu carburado milnovecentosealgumacoisa.
minha mulher estava tomando o cafe da manha quando passei pela cozinha para pegar uma camisa limpa na area de tanque. "bom dia, amor' beijo. "leva o bebê ao medico pra mim hoje? tenho uma reunião de ultima hora".
tá bom. levo.
mensagem pro chefe. vou atrasar.
"to indo. ja ta tudo pronto. te amo." ela foi.
ouvi choro no outro quarto. mamadeira na mão e bico na boca do guri.
"ta na hora, amigão. vamos? fralda limpa? graças a deus."
"prrrrr"
"heheh... é isso ae."
coloquei o guri na cadeirinha para criancinhas do carro e passei nele o cinto de segurança de quatro pontos, não sem ouvir uma reclamação inteligível de quem nao quer ficar ali sentado.
plebe rude pra começar bem o dia. ele batia palmas meio descoordenadas, mas batia.
transito foda.
calor de quem nao tem ar condicionado no carro.
menino estressando. dei pra ele um daqueles jornaizinhos que a galera entrega nos sinais com propaganda de tudo o que existe.
rasgou tudo em minutos e tentou comer o ultimo pedaço. "nao faz isso, cara!" tomei dele e fui xingado numa lingua há muito esquecida.
entreguei as chaves de casa e tomei de volta. vai que ele joga pela janela.
"o que eu vou te dar?"
abri o porta luvas e achei o vidrinho do laboratório. dentro dele alguma coisa balançante e distrativa.
entreguei pro moleque que ficou satisfeito e quietinho. seguimos viagem. consulta rápida e rasteira. "como está esperto o rapazinho!"
nem me fale.
voltamos pro carro e fui xingado de novo quando fechei o cinto de segurança de quatro pontos. já de cara entreguei pra ele o santo vidrinho distrativo, mas que tinha deixado de ser balançante.
"onde voce colocou o treco que tava aí dentro?"
"prrrr"
"eita bosta... chegando em casa eu te tiro daí e procuro."
procurei.
nada do artefato balançante, chacoalhante, ou o que quer que seja.
deixei isso de lado, coloquei o vidrinho de volta no porta luvas e entreguei o estressado para a babá.
"da tchau pro papai, dá?"
balancei a mão e fui trabalhar.
"boa noite, amor. obrigado por ter levado o bebe. salvou minha pele".
a gente tá aí pra isso mesmo.
"amor, voce viu meus dentes de leite? mamãe me entregou mas nao faço idéia de onde deixei".
nada vi.
"vidrinho branco com tampinha verde...?"
nada sei.
"ah, nao..."
acho que ta no carro. vou olhar pra voce.
peguei o vidrinho e enfiei bem fundo no saco de lixo mais fedorento que encontrei.
vi nao, amor. posso jurar que tinha visto no carro, mas nao ta la. cheguei a vasculhar o lixo de hoje, mas tá lá tambem nao. tem valor sentimental, né?

sexta-feira, 19 de outubro de 2007



_eu gostaria de estar la quando aconteceu. me senti fraco. incapaz.
_dizem que podia-se ouvir os gritos mesmo sob o barulho do transito.
os dois homens olharam para tras, ao ouvir um carro parando sobre o cascalho da calçada.
de um verde agressivo, contrastava com a paisagem montanhosa que pairava como um quadro enegrecido pelo tempo.
um guarda-chuva flutuou do lado oposto. negro e pomposo, cobria os olhos que guiavam aquela boca vermelha e provocante. volumosa, a beira da pornografia.
os dois trocaram olhares que não escondiam os pensamentos ímpares.
ela encaminhou-se pela grama, ladeada por um garoto com cerca de 8 anos, postura ereta, e refinada. deixou no ar um leve aroma de água e sabonete. simples. direto.
seguiu para o grupo de pessoas e postou-se ao lado de um antigo carvalho. colocou a mão esquerda sobre o ombro do garoto e olhou em volta.
_...ainda que eu ande pelos vales...
_ande para o inferno, padre.
as pessoas viraram-se assustadas e algumas se afastaram ao ve-la parada ali.
ouviam-se comentarios sobre sua beleza, sua ousadia e sobre o garoto cego.
ela encaminhou-se para o caixao e tocou a tampa, derramando as gotas de chuva que haviam se acumulado.
_ele foi o melhor ja conhecemos. voces não valem essa grama onde pisam. voces o mataram. deram a ele a pior morte que alguem pode ter. quero que saiam agora daqui.
ele não precisa de suas palavras de salvação, padre. voces são um um coração falido que precisa abusar do medo alheio para manter-se aquecido. fico feliz por ter certeza de que o calor dele agora está no ar. desprendeu-se. voou.
os dois homens se aproximaram da mulher. em suas mãos brilhava a arma que já havia feito deitar tantos corpos. ela estava pronta para berrar e banhar o solo com o sangue de mais um desconhecido.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007



...dizem que os pecados dos pais passam para os filhos...


a moça de camisa azul olhava para as arvores passando velozes pela janela do ônibus.
pensava no marido voltando de outro lugar. estaria também observando as arvores que passam velozes? tão velozes quanto os dias bons de suas vidas. tão velozes quanto suas noites acordados.
seu medo de ficar sozinha vivia chocando-se com o medo de envelhecer em desgosto. sem poder ter filhos, sem ter um companheiro de verdade.
ligou o rádio, fechou os olhos e começou a cantar.

ele lia sobre engenharia genética. as aplicações da hibridação de Southern, quando tomou um empurrão do lado direito.
_desculpe.
_tudo bem. acontece.
_sobre o que ta lendo?
_genética. fim de curso.
_muito legal. onde faz o curso?
_na federal.
_eu terminei no ano passado o curso de letras.
_legal.
_se estiver incomodando, me fala.
_não... tudo bem.
_qual é o seu nome?
_luiz.
_nome bonito. forte. prazer, alex.
ele voltou a abrir a revista maldizendo a estratégia usada pelo cara para se aproximar.
maldizendo o perfume adocicado que ficou em sua camisa no momento da trombada. a lembrança dos olhos devoradores e da mão pesada em seu ombro enquanto a voz mansa pedia desculpas.
pediu licença e se afastou. sentou-se nos degraus da porta do onibus, e minutos depois precisou se levantar para ver alex passando e se despedindo com um sorriso triste.

descendo do onibus, olhou para o céu. lembrou-se de muitos anos antes, quando conseguia ver um oceano de estrelas. seus formatos, suas constelações.
deitava-se na calçada da casa de seus pais e ao lado de seu irmão ficava tentando contar as maiores, mas sem apontar, porque diziam que apontar e contar estrelas provocava o nascimento de verrugas. eles morriam de medo.
começou a caminhar, sentindo as pedras do chão denunciando suas formas sob a sola fina de seu sapato. vira os homens colocando cada uma delas, um trabalho de perfeição e suor. eram pessoas humildes e felizes. faziam o que gostavam de fazer, e com um talento que beirava a perfeição.
parou novamente. respirando fundo em meio ao frio, tentava criar coragem para se dirigir ao ponto mais alto da catedral.

[foto de leonardo costa braga]

quinta-feira, 2 de agosto de 2007



_tudo certinho?
_tudo certo. obrigada.
_então ta bom. tchau.
_tchau.
Z passou pela porta da sala de recebimento de materiais e leu num quadro um informe sobre música erudita, num sábado próximo. lembrou de um grande amigo da infância.
a caminho do elevador, viu pelo corredor varias plantas em vasos bonitos e de pintura envelhecida. plantas artificiais, provavelmente.
o elevador estava demorando. havia um rapaz que lia um quadro com explicações sobre o uso racional do mesmo. batia o pé esquerdo, irritado e impaciente.
a seta indicando a direção do elevador que parou, iluminou-se para baixo. direção correta. a porta se abriu e mostrou-se vazio. no momento, eram os dois os únicos passageiros.
_'passageiros?' - pensava ele. - como se chamavam os ocupantes de um elevador? ocupantes? e os dirigidores de metrô? motorista, pilotos, operadores? vai saber.
o elevador parou no 13º andar e entrou um rapaz magro, com cerca de 25 anos. um ferimento no meio do labio inferior. a primeira vista, poderia tratar-se de um piercing arrancado, ou perfuração inflamada. logo atras dele vinham dois seguranças de uma transportadora de valores, com as mãos sobre os coldres. quando estavam dentro do elevador, e de frente para a porta, entrou um terceiro carregando uma escopeta calibre 12.
formaram um triangulo, com o homem da escopeta a frente, e com um aceno de cabeça, o mais velhor deles apontou para o meio da formação, dizendo onde o rapaz machucado deveria ficar.
ele carregava sob o braço direito uma pasta de lona fina, azul e surrada. sem qualquer inscrição ou símbolo.
a porta se fechou e recomeçou a descida. chegando ao 11º andar, as luzes se apagaram e o elevador parou violentamente, jogando no chão o homem da escopeta e o rapaz impaciente do 15º.
Z só nao caiu porque estava apoiado ao final do elevador, entre o fundo e a lateral esquerda. ouvia o som dos cabos balançando e se chocando. seus olhos começavam a se acostumar a escuridão e viu o homem da escopeta e o impaciente se levantando e praguejando.
não havia sinal para os celulares, e o unico radio disponível com os seguranças só captava estática.
ainda com as luzes do elevador apagadas, o elevador voltou a descer lenta e gradativamente. às vezes parando por cerca de 10 segundos, e voltando a se movimentar em seguida.
era impossivel saber em que andar estavam agora. a agonia por liberdade começava a dar lugar a uma preocupação com o que poderia estar causando o problema.
em seus ouvidos o cantor berrava ''i will fly arround your fire anymore'' no momento exato em que pararam novamente e começaram a subir. os seguranças sacaram as armas e tantavam desesperadamente contato atraves do radio. arrancou os fones do ouvido e tentou abrir a porta.
estática.
parou novamente. as paredes vibraram e começaram a ouvir pancadas fortes vindas de cima. não onde estavam, mas muito acima, como se tentassem arrombar algo.
todos começaram a procurar por alguma saida de emergência, apertando freneticamente - e em vão - os botões.
_merda. só faltava isso. eu morrer no escuro, e no meio de um monte de homem.
pensava Z, enquanto forçava a porta que parecia soldada por fora. voltou-se para tras e deu de cara com o rapaz magro. sob a luz dos celulares, ele sorria. olhava para cima, decifrando a escuridão, e sorria.

quinta-feira, 5 de julho de 2007



sempre fui parte de um mundo onde o que fazemos importa mais aos outros do que a nós mesmos enquanto sonhamos sorrimos cantamos choramos caímos ou subimos pelas paredes as palavras nos faltam para dizar o quanto importa a opiniao alheia que na verdade jamais está realmente alheia ao que fazemos ou nao jamais esta alheia ao que possamos fazer ou querer esse mundo do qual faço parte nos separa de forma brutal eu que não quero ser parte dele voce que quer ser parte de mim mas está preso aos desejos alheios de que tudo e todos sejam submissos de um modelo falido de vida e vivência somos neutros quando somos um somos o mesmo grito o mesmo gozo e o mesmo salivar mas nos separa a força como expomos o desejo de peito aberto desafiando o tudo eu sou a lâmina voce a carne sou a dor voce o impacto tão longe tão perto seu olhar me faz puta lançada de encontro ao muro sem piedade ou pagamento gostando de cada latejar e cada doer ainda assim te importa o quanto vou te fazer diferente num mundo que não é o meu tampouco chegou um dia a ser nosso

sexta-feira, 22 de junho de 2007



ela viu luzes girando. retorcidas e embaçadas.
um cheio azedo invadiu o ambiente. vômito.
percebeu que suas mãos e pés estavam fortemente amarrados, prendendo a circulaçao e deixando frias as extremidades.
_teve uma boa noite?
_quem é voce?
_seja educada e responda a pergunta.
_foda-se. me solta!
_isso foi grosseiro. não combina com uma dama.
_muito gentil de sua parte ter me amarrado tão delicadamente.
_toda mulher gosta de um pouco de força usada no momento certo.
_quem é voce?
_creio que agora ja nao importa tanto. devia perguntar-se o que farei a voce.
_...
_ou até mesmo o que fiz a seu colega. creio que ele nao tenha gostado tanto do que injetei em seu braço musculoso.
_super john??? o que voce fez a ele?
_hahahahaha! que mocinha esperta!
_quem é voce? o que quer comigo?
_quero te fazer sofrer. quero te fazer gritar. acabar com sua raça de super herois chatos.
_nao! voce???
_hahahaha! sim. eu. hahahah!
_doutor macabro?!? nao! nao! naaaaaaaoooo!!!!

domingo, 20 de maio de 2007


juventino gostava de sair às ruas da cidade trajando seu terno impecável, chapéu preto de feltro e fita branca. as botinas de couro cru que deixavam pegadas fundas na poeira, sustentavam metro e noventa do homenzarrão e faziam par às esporas que castigavam as costelas do pobre cavalo.
ninguem sabia de onde apareceu o sujeito. gentil, justo e bom pagador. sua casa era uma formosura só. isso, vista por fora, pois ninguem mais entrou no palacete depois que a comprou do coronel gervásio por volta da época das enchentes, quando ninguem pagaria um caroço de milho por residencia na região. homem corajoso e com tino de artista. reformou o palacete com as próprias mãos. bom gosto danado.
muita gente contava que certa manhã viram alguem correndo em meio ao mataréu, do jeito que veio ao mundo, gritando como se estivessem querendo lhe cortar as partes. muita gente jura de pé junto, até hoje, que era juventino. logo em época de quaresma. dia depois da lua cheia.
padre afonso foi chamado em vias de se fazer reunião.
_e se é lobisomem fugido?
_valha-me meu sinhô jisuis!
foi rezada missa em segredo de juventino, que era cristão fiel. ajudou até na reforma da paróquia e da escolinha pra criançada da cidade.
_senhor, afasta de nós a besta fera!
as mocinhas que ficavam nas janelas se ajeitando para fazer boa imagem de pretendidas não mais queriam ser vistas pelo peludão.
as crianças na rua corriam para as pernas das mães que quase caíam duras fazendo o sinal da cruz.
os homens baixavam os olhos, pois dizem que encarar o coisa-ruim faz nascer furúnculos por todo o corpo. isso é coisa de tirar coragem de qualquer um.
juventino pareceu nunca notar o medo de seus vizinhos. ainda não se sabe se não notava realmente, ou se fingia de desentendido.
tudo o que se tem notícia até hoje, é de que o padre, o açougueiro, o prefeito e mais algumas pessoas participantes da reunião secreta, foram convidados para um jantar na casa de juventino. lá, foram informados de que ganharam passagens para conhecer toda a europa, tudo por conta do anfitrião, e deveriam partir imediatamente. e, é claro, todos aceitaram.
palavras de juventino. quem vai duvidar?

terça-feira, 15 de maio de 2007



ela despertou diante de uma parede escura, marcada pelas gotas de chuva que caía forte.
movia-se lentamente, procurando sentir suas extremidades frias e rígidas, que aos poucos reagiam ao fluxo do sangue que circulava forte, provocando calafrios.
sentou-se na cama, encolhida, tentando no escuro ver o telefone do outro lado do quarto. alguns dias antes tinha lido algo sobre viagens da alma durante o sono. gostaria de poder experimentar, e, poder se observar sonhando. gostaria de poder se dividir agora para que uma parte pudesse sair pela porta e se molhar, de braços abertos. ver as pessoas passando em seus carros velozes, indiferentes àquela parte que observava. girar. gritar.
gritar.
a irmã fez ranger a cama no quarto ao lado. chorou muito essa noite.
chorou até doer o peito. sabia que doía mais do que qualquer coisa. sabia bem porque doía.
foi até a geladeira e pegou a caixinha de leite. não podia ver chuva descendo escura/brilhante pela janela. não conseguia ouvir as gotas no telhado ou no chão.
sentiu o estômago ficar frio. as pernas finas faziam o corpo balançar por baixo da camisola que a mãe trouxe no natal. era macia, leve. quase não deixava sentir as marcas na carne.
a cama voltou a ranger. ouviu a irmã procurando as sandálias no escuro.
_a chuva parou?
_parou.
_o pai já vai voltar!
_volta pra sua cama. volta. nao vou deixar que ele chegue ao seu quarto hoje de novo.
chorando e tremendo, a irmã cobriu-se dos pés a cabeça.
o som das chaves na porta demorou mais dessa vez. as chaves caíram e demoraram a ser levantadas novamente. a porta se abriu e junto ao fedor de alcool e cigarro, ele entrou.